Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio egoísmo, tolo, tonto, sofrido, inseguro e criminoso, o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.
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1 de julho de 2025
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 156.
Quando Carlyle afirmou que o "o homem é o único animal que ri" não fazia com isso uma mera constatação biológica. Biologicamente a hiena também ri. Fazia uma constatação psicológica e social. Seu erro era apenas admitir o riso como uma qualidade humana, quando é um defeito. O homem, da maneira porque vive, não tem do que rir. Por isso, à frase de Carlyle, deve-se acrescentar: "E é rindo que ele mostra o animal que é".
15 de junho de 2025
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 103.
É fundamental aprender a conviver com o medo, perder o mais cedo possível a esperança de nos livrarmos dele. Guimarães Rosa disse com sabedoria: "A cada dia, a cada hora, o homem aprende uma espécie nova de medo". Vivemos com medo físico, com medo econômico, com o medo metafísico diante da própria ameaça existencial que faz de nossos dias uma caminhada irreversível para a doença, para a velhice e para a morte: para o desastre. O medo é a mais fiel de nossas qualidades, nosso definitivo companheiro. Mesmo no silêncio e no escuro – ou sobretudo aí – não nos deixa. Quando o lugar é terrível, a situação desesperadora, as forças nos abandonam, a coragem nos deixa, o medo fica e cresce. Segue-nos como uma sombra e, inúmeras vezes, se confunde com ela. Nasce conosco e, se nos mata, morre conosco.
14 de junho de 2025
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 97.
As conquistas técnicas foram tornando cada vez mais fácil outra conquista, a das massas, passivas e alienadas. Já ninguém mais precisa se esforçar longamente, viajar muito, perder anos até alcançar a discutível popularidade. Hoje uma celebridade é todo débil mental que aparecer meia dúzia de vezes na televisão.
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 78.
O governo teima em atrair turistas para o Rio, cantando, em prosa e verso, as inexcedíveis belezas da cidade (do país). Acho que o Rio, justamente, deveria ser interditado ao turista, como vergonha nacional.
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 70.
Não conheço ninguém que, como eu, tenha tanta noção de ser um homem medíocre. O que, desde logo, me torna um homem extraordinário.
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 59.
Não podemos, como profissionais, oferecer ao público que nos frequenta, uma criação que ele também se julgue capaz de realizar. Seria o mesmo que um artesão fabricante de cadeiras nos oferecer uma cadeira feita com três ripas mal pregadas, mal alinhadas e mal envernizadas e nos cobrar por isso um preço profissional. No campo viril do artesanato, isso é impossível, pelo menos a esse ponto absurdo e pelo menos em larga escala. Uma cadeira comprada será sempre melhor do que as que conseguimos fazer em casa com nossas parcas habilidades e ferramentas inadequadas. E, no entanto, sem sombra de dignidade profissional, artistas, jornalistas e, sobretudo, produtores de televisão, não têm vergonha de apresentar ao público espetáculos degradantes como caráter, humilhantes como representação geral do nível artístico do país, e perigosíssimos no sentido de que uma massa de estupidez muito grande acaba embotando mesmo o potencial de inteligência mais privilegiado.
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 49.
O homem brilhante, capaz de raciocinar a todo momento, dinâmico no seu pensamento, varia e muda com o tempo e não é mais hoje o que era há dez anos atrás. Mas o imbecil, que só tem uma ideia, incapaz de raciocinar é, forçosamente, um homem de grande convicção.
13 de junho de 2025
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 101.
A televisão foi um meio inventado pelo homem medíocre para ser utilizado pela mediocridade para a mediocridade. Deveria se chamar mediovisão.
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