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16 de agosto de 2015

Ultima multis


de repente um gosto veio
fugacidade e saliva
um certo ranço, receio
dessa hora decisiva

lembro-me do rosto, meio
encoberto, inconcebida
sensação — o quarto cheio
em torneio com a vida

depois, o choro — e calcadas
na parede, as sombras — luto
de formas mal debuxadas

suspiros, rosas em cruz
sobre o peito resoluto
círios, odores e luz

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FERREIRA, Antonio Geraldo Figueiredo. Peixe e míngua. São Paulo: Nankin Editorial, 2003. p. 93.

9 de outubro de 2013

Dizer de novo


repito: é noite, e tudo é noite, noite
até que o som dissolva na matéria
o significado da miséria
dessa noite, somente minha noite
sem vagos sortilégios, sem estrelas
um tempo em tom menor, cotidiano
em que não há esforços vãos nem planos
inúteis para a vida, embora vê-la
desse modo revele algum desejo
mesmo que de dissolução, de fim
de nada que sustente o pouco peso
dos sonhos de uma noite, minha noite
na vida que eu queria fosse assim
inteiramente noite, dia e noite

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FERREIRA, Antonio Geraldo Figueiredo. Peixe e míngua. São Paulo: Nankin Editorial, 2003. p.32.

26 de setembro de 2013

Ainda sempre é tempo


não fique triste, pai
a vida foi
a vida vai
já deu tempo de seu filho ficar velho

não fique triste, mãe
eu também não fui
e tudo o que fiz cabe nas mãos

sem tristeza, caros antepassados
eu não a tenho, creiam
pois quem morre perde tempo
e eu ainda posso fazer tudo

ou quase tudo

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FERREIRA, Antonio Geraldo Figueiredo. Peixe e míngua. São Paulo: Nankin Editorial, 2003. p.18.