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16 de agosto de 2015
Ultima multis
de repente um gosto veio
fugacidade e saliva
um certo ranço, receio
dessa hora decisiva
lembro-me do rosto, meio
encoberto, inconcebida
sensação — o quarto cheio
em torneio com a vida
depois, o choro — e calcadas
na parede, as sombras — luto
de formas mal debuxadas
suspiros, rosas em cruz
sobre o peito resoluto
círios, odores e luz
______
FERREIRA, Antonio Geraldo Figueiredo. Peixe e míngua. São Paulo: Nankin Editorial, 2003. p. 93.
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15 de maio de 2010
O dia do juízo
Quatro marm'anjos botarão a boca
No trombone, um em cada canto, e então,
Com toda a força dos pulmões dirão:
"É hora, pessoal. Fora da toca!"
Depois virá chegando a massaroca
de esqueletos, da terra, de roldão,
Catando os corpos pra reunião,
Pintos em torno da galinha choca.
E a galinha será Deus poderoso,
Separando a pureza da sujeira:
Uns vão pro caldeirão, outros pro gozo.
Por último virá uma fieira
De arcanjos: uma a um, belo e formoso,
Apagarão a luz e "bona sera".
______
BELLI, Giuseppe Gioachino. O dia do juízo. In: CAMPOS, Augusto de. À margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 59.
No trombone, um em cada canto, e então,
Com toda a força dos pulmões dirão:
"É hora, pessoal. Fora da toca!"
Depois virá chegando a massaroca
de esqueletos, da terra, de roldão,
Catando os corpos pra reunião,
Pintos em torno da galinha choca.
E a galinha será Deus poderoso,
Separando a pureza da sujeira:
Uns vão pro caldeirão, outros pro gozo.
Por último virá uma fieira
De arcanjos: uma a um, belo e formoso,
Apagarão a luz e "bona sera".
______
BELLI, Giuseppe Gioachino. O dia do juízo. In: CAMPOS, Augusto de. À margem da margem. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 59.
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18 de março de 2010
Soneto do desmantelo azul
A Samuel Mac Dowell, filho
ENTÃO, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
______
FILHO, Carlos Pena. Livro geral. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
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Para fazer um soneto
A Tomaz Seixas
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças de infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.
______
FILHO, Carlos Pena. Livro geral. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
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A solidão e sua porta
A Francisco Brennand
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
______
FILHO, Carlos Pena. Livro geral. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
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Soneto para Greta Garbo
(Em louvor da decadência bem comportada)
Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome;
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já nem saiba por que chora.
Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe,
transforma-se em silêncio, porque sabe
que o silêncio se oculta e se evapora.
Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a face
que já foi sol e agora é cinza fria.
Mas vê nascer da sombra outra alegria:
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.
______
FILHO, Carlos Pena. Livro geral. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome;
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já nem saiba por que chora.
Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe,
transforma-se em silêncio, porque sabe
que o silêncio se oculta e se evapora.
Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a face
que já foi sol e agora é cinza fria.
Mas vê nascer da sombra outra alegria:
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.
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FILHO, Carlos Pena. Livro geral. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.
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10 de fevereiro de 2010
Soneto XLIV
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
______
NERUDA, Pablo. Cem sonetos de amor. Porto Alegre: L&PM, 1997.
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2 de fevereiro de 2010
Prodígio
Oh flor, oh muro,
Vós ambos sois.
Ser, este é, pois,
O liame obscuro
Que há em vós. O puro
Elo. Depois,
Se se erguem sóis,
Se se alça o escuro,
Que importa? Estais,
Seiva, argamassa,
Aqui. Jamais
Sereis mais que isto
Que é, que não passa.
Oculto e visto.
______
BUENO, Alexei. Em sonho. Rio de Janeiro: Record, 1999.
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