29 de outubro de 2026

A morte da colibri

Morreu a colibri. Morreu rápido, fácil, sem dores ou aflições. Morreu como um passarinho. Sua única tristeza, ao partir, parecia ser a certeza de que, como todos os colibris, o esposo morreria assim que ela abandonasse o mundo.1 Pois é sabido que um colibri não pode viver sem a sua companheira. Jamais houve um colibri que conseguisse resistir à morte da fêmea, eis a suprema grandeza de um amor. Mas como a colibri sabia disso, isso também sabia o dono do colibri viúvo. E, assim que a colibri morreu, o esperto dono2, rapidamente, colocou diante do colibri vivo um espelho perfeitamente polido para que a avezinha não sentisse a falta da companheira. E como tal se buscava, tal se deu. O colibri-espelho considerou duplicada a sua vida e, assim, continuou vivendo, contrariando a lenda e a ornitologia. Mas lá veio o dia fatal em que um moleque atirou uma pedra na gaiola, tentando acertar o colibri. Não acertou no colibri, mas acertou no espelho. E logo, num minuto, olhando em volta, atônito, apalermado, o colibri entrou em pânico, em agonia, e sucumbiu. O médico chegou apenas a tempo de constatar a morte e declarar a causa: morreu de espelho partido.

MORAL: NINGUÉM PODE VIVER SEM O REFLEXO DA PRÓPRIA IMAGEM.
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FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999. pp. 27-8.

1 Dizemos que abandonamos o mundo quando o mundo nos abandona. ↩

2 A esperteza faz parte da natureza intrínseca do dono. ↩

13 de março de 2026

HABERMAS, Jürgen. Entrevista com Jürgen Habermas. Tradução de Sonia Ramos. In: IÑIGO, Emilio Lledo. A filosofia, hoje. Rio de Janeiro: Salvat, 1980. p. 23.

A única bandeira que o pensamento filosófico eficaz em grande escala, em contato com as ciências, poderia arvorar contra os ambivalentes fenômenos de desintegração da identidade das pessoas e dos grupos, surgidos nas culturas avançadas, é a frágil unidade da razão, ou seja, a unidade da identidade com o não-idêntico, resultante de uma discussão racional.

1 de julho de 2025

FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 158-9.

Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio egoísmo, tolo, tonto, sofrido, inseguro e criminoso, o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.

FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 156.

Quando Carlyle afirmou que o "o homem é o único animal que ri" não fazia com isso uma mera constatação biológica. Biologicamente a hiena também ri. Fazia uma constatação psicológica e social. Seu erro era apenas admitir o riso como uma qualidade humana, quando é um defeito. O homem, da maneira porque vive, não tem do que rir. Por isso, à frase de Carlyle, deve-se acrescentar: "E é rindo que ele mostra o animal que é".

18 de junho de 2025

Mediocridade

A média, mas considerada em sua insuficiência. É nosso estado normal, mas não é a norma. Para o espírito, somente a exceção merece ser a regra.

A mediocridade é o oposto do justo meio aristotélico: não é uma linha de crista entre dois abismos, mas uma sarjeta, como as que se faziam nas ruas na Idade Média, entre duas rampas. Basta deixar-se escorregar para nela cair.


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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 378.

Humor

É uma forma de graça, mas que faz rir principalmente do que não é engraçado. Por exemplo, o condenado à morte, evocado por Freud, que conduzem numa segunda-feira ao patíbulo: “A semana está começando bem!”, murmura ele. Ou Woody Allen: “Não só Deus não existe, mas tentem encontrar um encanador no fim de semana!” Ou Pierre Desproges anunciando sua doença ao público: “Se você for mais canceroso que eu, está morto!” Isso supõe um trabalho, uma elaboração, uma criação. Não é o real que é engraçado, mas o que dele se diz. Não seu sentido, mas sua interpretação – ou sua falta de sentido. Não o prazer que nos oferece, mas o que sentimos ao constatar que ele não propõe nenhum que possa nos satisfazer. Conduta de luto: buscamos um sentido; constatamos que ele falta ou se destrói; rimos do nosso próprio fracasso. E isso, porém, é como um triunfo do espírito.

O humor se distingue da ironia pela reflexividade ou pela universalidade. O ironista ri dos outros. O humorista, de si ou de tudo. Ele se inclui no riso que provoca. É por isso que nos faz bem, ao pôr o ego à distância. A ironia despreza, exclui, condena; o humor perdoa ou compreende. A ironia fere; o humor cura ou aplaca.

Há algo de trágico no humor; mas é um trágico que se recusa a levar-se a sério. Ele trabalha sobre as nossas esperanças, para assinalar seu limite, sobre nossas decepções, para rir delas, sobre nossas angústias, para superá-las. “Não é que eu tenha medo da morte”, explica por exemplo Woody Allen, “mas preferiria estar em outro lugar quando ela ocorrer”. Defesa derrisória? Sem dúvida. Mas que assim se confessa e que indica muito bem, contra a morte, que todas as defesas o são. Se os fiéis tivessem senso de humor, que restaria da religião?


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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 287.

15 de junho de 2025

FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 103.

É fundamental aprender a conviver com o medo, perder o mais cedo possível a esperança de nos livrarmos dele. Guimarães Rosa disse com sabedoria: "A cada dia, a cada hora, o homem aprende uma espécie nova de medo". Vivemos com medo físico, com medo econômico, com o medo metafísico diante da própria ameaça existencial que faz de nossos dias uma caminhada irreversível para a doença, para a velhice e para a morte: para o desastre. O medo é a mais fiel de nossas qualidades, nosso definitivo companheiro. Mesmo no silêncio e no escuro – ou sobretudo aí – não nos deixa. Quando o lugar é terrível, a situação desesperadora, as forças nos abandonam, a coragem nos deixa, o medo fica e cresce. Segue-nos como uma sombra e, inúmeras vezes, se confunde com ela. Nasce conosco e, se nos mata, morre conosco.