Desde que os primeiros sinais de autoconsciência lampejaram nas mentes de nossos distantes ancestrais, o homem (ou os pré-humanos) tem ponderado sobre o seu relacionamento com o mundo exterior. Assim, podemos supor que os primeiros humanos, por volta de 1 milhão de anos atrás, tenham tido consciência de si mesmos como parte integrante de seu ambiente de vida: de fato, eram caçadores e colhedores que sobreviviam somente se respeitassem o mundo no qual viviam. Mesmo assim, eles já poderiam ter iniciado a antiquíssima prática humana de procurar assegurar um tratamento mais favorável a si mesmos, ao apelar, de diversas maneiras, para as forças naturais maiores que regem o mundo. Mas, com o passar do tempo, emergiram por fim os humanos modernos – Homo sapiens sapiens – criaturas que, a um observador extraterreno, devem parecer muito perversas. À diferença de qualquer outro animal, guerreamos entre nós mesmos. Cônscios das consequências, exploramos os recursos limitados do nosso ambiente e parecemos acreditar que essa nossa destruição possa continuar para sempre. E preferimos ignorar as profundas marcas de injustiça, conscientemente impostas, tanto entre nações, como dentro delas mesmas. Num certo sentido, são os humanos que agora regem o mundo: nossa extraordinária inteligência criativa dá-nos o potencial para fazermos em maior ou menor grau qualquer coisa que queiramos. Mas, poderia ponderar um observador extraterreno: não é o dominador um tanto louco?
7 de novembro de 2026
29 de outubro de 2026
A morte da colibri
Morreu a colibri. Morreu rápido, fácil, sem dores ou aflições. Morreu como um passarinho. Sua única tristeza, ao partir, parecia ser a certeza de que, como todos os colibris, o esposo morreria assim que ela abandonasse o mundo.1 Pois é sabido que um colibri não pode viver sem a sua companheira. Jamais houve um colibri que conseguisse resistir à morte da fêmea, eis a suprema grandeza de um amor. Mas como a colibri sabia disso, isso também sabia o dono do colibri viúvo. E, assim que a colibri morreu, o esperto dono2, rapidamente, colocou diante do colibri vivo um espelho perfeitamente polido para que a avezinha não sentisse a falta da companheira. E como tal se buscava, tal se deu. O colibri-espelho considerou duplicada a sua vida e, assim, continuou vivendo, contrariando a lenda e a ornitologia. Mas lá veio o dia fatal em que um moleque atirou uma pedra na gaiola, tentando acertar o colibri. Não acertou no colibri, mas acertou no espelho. E logo, num minuto, olhando em volta, atônito, apalermado, o colibri entrou em pânico, em agonia, e sucumbiu. O médico chegou apenas a tempo de constatar a morte e declarar a causa: morreu de espelho partido.
MORAL: NINGUÉM PODE VIVER SEM O REFLEXO DA PRÓPRIA IMAGEM.
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FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999. pp. 27-8.
1 Dizemos que abandonamos o mundo quando o mundo nos abandona. ↩
2 A esperteza faz parte da natureza intrínseca do dono. ↩
13 de março de 2026
HABERMAS, Jürgen. Entrevista com Jürgen Habermas. Tradução de Sonia Ramos. In: IÑIGO, Emilio Lledo. A filosofia, hoje. Rio de Janeiro: Salvat, 1980. p. 23.
A única bandeira que o pensamento filosófico eficaz em grande escala, em contato com as ciências, poderia arvorar contra os ambivalentes fenômenos de desintegração da identidade das pessoas e dos grupos, surgidos nas culturas avançadas, é a frágil unidade da razão, ou seja, a unidade da identidade com o não-idêntico, resultante de uma discussão racional.
1 de julho de 2025
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 158-9.
Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio egoísmo, tolo, tonto, sofrido, inseguro e criminoso, o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.
FERNANDES, Millôr. Livro vermelho dos pensamentos de Millôr. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 156.
Quando Carlyle afirmou que o "o homem é o único animal que ri" não fazia com isso uma mera constatação biológica. Biologicamente a hiena também ri. Fazia uma constatação psicológica e social. Seu erro era apenas admitir o riso como uma qualidade humana, quando é um defeito. O homem, da maneira porque vive, não tem do que rir. Por isso, à frase de Carlyle, deve-se acrescentar: "E é rindo que ele mostra o animal que é".
30 de junho de 2025
LOPES, Nei & SIMAS, Luis Antonio. Filosofias africanas: uma introdução. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. p. 122.
Tudo o que se fala tem dois significados. (Provérbio africano).
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LOPES, Nei & SIMAS, Luis Antonio. Filosofias africanas: uma introdução. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. p. 116.
Pés impacientes dão na cova da serpente. (Provérbio africano)
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LOPES, Nei & SIMAS, Luis Antonio. Filosofias africanas: uma introdução. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. p. 118.
O tolo ouve a maldição como uma benção. (Provérbio africano)
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18 de junho de 2025
Mediocridade
A média, mas considerada em sua insuficiência. É nosso estado normal, mas não é a norma. Para o espírito, somente a exceção merece ser a regra.
A mediocridade é o oposto do justo meio aristotélico: não é uma linha de crista entre dois abismos, mas uma sarjeta, como as que se faziam nas ruas na Idade Média, entre duas rampas. Basta deixar-se escorregar para nela cair.
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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 378.
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Humor
É uma forma de graça, mas que faz rir principalmente do que não é engraçado. Por exemplo, o condenado à morte, evocado por Freud, que conduzem numa segunda-feira ao patíbulo: “A semana está começando bem!”, murmura ele. Ou Woody Allen: “Não só Deus não existe, mas tentem encontrar um encanador no fim de semana!” Ou Pierre Desproges anunciando sua doença ao público: “Se você for mais canceroso que eu, está morto!” Isso supõe um trabalho, uma elaboração, uma criação. Não é o real que é engraçado, mas o que dele se diz. Não seu sentido, mas sua interpretação – ou sua falta de sentido. Não o prazer que nos oferece, mas o que sentimos ao constatar que ele não propõe nenhum que possa nos satisfazer. Conduta de luto: buscamos um sentido; constatamos que ele falta ou se destrói; rimos do nosso próprio fracasso. E isso, porém, é como um triunfo do espírito.
O humor se distingue da ironia pela reflexividade ou pela universalidade. O ironista ri dos outros. O humorista, de si ou de tudo. Ele se inclui no riso que provoca. É por isso que nos faz bem, ao pôr o ego à distância. A ironia despreza, exclui, condena; o humor perdoa ou compreende. A ironia fere; o humor cura ou aplaca.
Há algo de trágico no humor; mas é um trágico que se recusa a levar-se a sério. Ele trabalha sobre as nossas esperanças, para assinalar seu limite, sobre nossas decepções, para rir delas, sobre nossas angústias, para superá-las. “Não é que eu tenha medo da morte”, explica por exemplo Woody Allen, “mas preferiria estar em outro lugar quando ela ocorrer”. Defesa derrisória? Sem dúvida. Mas que assim se confessa e que indica muito bem, contra a morte, que todas as defesas o são. Se os fiéis tivessem senso de humor, que restaria da religião?
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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 287.
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