Mostrando postagens com marcador Michel Onfray. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michel Onfray. Mostrar todas as postagens

28 de novembro de 2024

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 117.

No espírito de Nietzsche, era preciso uma Grande Política, livre das contingências estreitas e mesquinhas daquilo que se convencionou chamar hoje de política politiqueira. Afastada dos cálculos cotidianos, da aritmética em virtude da qual se ascende ao poder e depois lá se mantém, a grande política quer os meios de uma ação e visa à encarnação. O poder, certamente, mas para fazer o quê, senão exprimir, realizar, encarnar uma política, quer dizer, um projeto, ideias, um querer, uma energia. A força se distingue da violência, pois a primeira sabe aonde vai, e a segunda se submete aos impulsos selvagens que a habitam. O capitalismo é uma violência, a política uma força. E a segunda serve como único remédio para a primeira.

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 117.

O reencantamento do mundo só poderá ocorrer visando ao fim de um economismo celebrado sob a forma de religião, entendido como único laço social possível hoje. A submissão da economia à lei da política é uma necessidade vital. Enquanto perdurar o inverso, a lei do mercado triunfará, sozinha, sem contrapartida e, projetados no sentido do abismo, nós conheceremos corridas desenfreadas em direção a mais mortes, sofrimento e dor.

5 de outubro de 2024

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 79.

A religião do trabalho fez do desempregado um mártir. O fervor que ela exige e os sacrifícios que espera transformaram os solicitantes de emprego em pecadores e em penitentes que podem obter o perdão e a salvação à medida que merecerem e receberem uma redenção à custa da impassibilidade e da submissão às necessidades das leis, se não da fatalidade, pelo menos de um mercado que faz reinar seu terror por meio da penúria organizada do trabalho no lugar da partilha.

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. pp. 72-3.

O diploma atesta e certifica a utilização correta da razão, quer dizer, sua execução segundo os costumes sociais confirmados, mas certamente não em virtude da pura inteligência ou da inventividade radical.

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 72.

Os velhos e as velhas, aos quais são negados todos os direitos salvo o de ser ainda consumidor e gastar de sua aposentadoria no jogo social consumista, sofrem progressivamente a privação de toda arrogância permitida aos jovens: sem sensualidade, nem sexualidade triunfante, uma vida privada que se quer modesta e discreta. Empurrados docilmente em direção à saída, os afagamos, conservamos e veneramos, desde que reciclem suas economias dentro da máquina social.

14 de setembro de 2024

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 56.

O objetivo permanece indefectivelmente nietzschiano: "Incomodar a estupidez." Sem isso, esta triunfará sozinha e a tal ponto que os autoritarismos do passado parecerão ternos e pálidos ao lado desses que terão conseguido subjugar os cor-pos, certamente, mas também e sobretudo as almas. O fascismo a vir, senão já presente, não se contenta mais em submeter os corpos, ele dispõe de meios para conseguir a sujeição das almas, a partir de hoje, antes de qualquer hipotética tomada de poder no modelo golpista.

11 de setembro de 2024

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 44.

Uma fenomenologia dos comportamentos nazistas no campo de concentração permitiu a Robert Antelme concluir que não havia diferença de natureza essencial entre o que se passava dentro dos limites de Buchenwald e o que é visível no mundo do trabalho habitual. De uma certa maneira, Jean Améry ilustra esse tema mostrando o quanto o intelectual estava mais despojado dentro do campo do que o trabalhador manual, já habituado, na sua existência quotidiana, a esses regimes de submissão e de exploração, a esse servilismo que transforma os homens em animais de carga, utiliza-os como gado, mercadorias, máquinas. Antelme via dentro do campo de concentração uma pura e simples ampliação, senão uma caricatura extrema, são suas estas expressões, do que se passa dentro do mundo verdadeiro ao qual todos aspiram, fechados em seus blocos.