29 de outubro de 2026

A morte da colibri

Morreu a colibri. Morreu rápido, fácil, sem dores ou aflições. Morreu como um passarinho. Sua única tristeza, ao partir, parecia ser a certeza de que, como todos os colibris, o esposo morreria assim que ela abandonasse o mundo.1 Pois é sabido que um colibri não pode viver sem a sua companheira. Jamais houve um colibri que conseguisse resistir à morte da fêmea, eis a suprema grandeza de um amor. Mas como a colibri sabia disso, isso também sabia o dono do colibri viúvo. E, assim que a colibri morreu, o esperto dono2, rapidamente, colocou diante do colibri vivo um espelho perfeitamente polido para que a avezinha não sentisse a falta da companheira. E como tal se buscava, tal se deu. O colibri-espelho considerou duplicada a sua vida e, assim, continuou vivendo, contrariando a lenda e a ornitologia. Mas lá veio o dia fatal em que um moleque atirou uma pedra na gaiola, tentando acertar o colibri. Não acertou no colibri, mas acertou no espelho. E logo, num minuto, olhando em volta, atônito, apalermado, o colibri entrou em pânico, em agonia, e sucumbiu. O médico chegou apenas a tempo de constatar a morte e declarar a causa: morreu de espelho partido.

MORAL: NINGUÉM PODE VIVER SEM O REFLEXO DA PRÓPRIA IMAGEM.
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FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999. pp. 27-8.

1 Dizemos que abandonamos o mundo quando o mundo nos abandona. ↩

2 A esperteza faz parte da natureza intrínseca do dono. ↩