13 de novembro de 2011

116. O cristão comum

Se o cristianismo tivesse razão em suas teses acerca de um Deus vingador, da pecaminosidade universal, da predestinação e do perigo de uma danação eterna, seria um indício de imbecilidade e falta de caráter não se tornar padre, apóstolo ou eremita e trabalhar, com temor e tremor, unicamente pela própria salvação; pois seria absurdo perder assim o benefício eterno, em troca de comodidade temporal. Supondo que se creia realmente nessas coisas, o cristão comum é uma figura deplorável, um ser que não sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo.


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NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. [trad. de Paulo César de Souza]. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 95.

25 de outubro de 2011

Três peças circenses

I- O PRESTIDIGITADOR


Este papel que se oferece virgem
ao bel-prazer da pena e tinta
é todo teu, só teu, como não é,
nem nunca foi, a tua vida.

A gozosa vertigem dos começos -
esse friozinho bom no estômago -
aqui encontra lastro, ainda que tênue,
na realidade tão incômoda.

E se esta página inaugural
negar-te a façanha de um verso,
um gesto rápido há de restaurar
a virgindade do caderno.

As vértebras flexíveis da espiral
não vão guardar nenhum vestígio
(como fazem as lombadas traiçoeiras)
deste pequeno infanticídio.

Somente a nova página primeira
testemunhou a recaída.
Tenta outra vez: Este papel, etc.
(Restam noventa e nove ainda.)



II- O ENCANTADOR DE SERPENTES


Por entre as linhas incautas da leitura
ideia insidiosa se insinua,

como se sugerisse um outro texto
mais vivo, extremo, e verdadeiro

de uma verdade esguia e peçonhenta
a recobrir de visgo tua página

já quase impenetrável -
                                     felizmente

resta o recurso derradeiro:
Para. Volta atrás. Faz do palimpsesto

papel vulgar. Agora continua,
retoma a doce flauta da literatura.



III- O FUNÂMBULO


Entre a palavra e a coisa
o salto sobre o nada.

Em torno da palavra
muitas camadas de sonho.
Uma cebola. Um átomo.
Uma cebola ávida.
Entre uma e outra camada
nada.

Saltam sobre o abismo,
tomam o vazio de assalto.
De píncaro a píncaro
projetam-se, impávidas,
epifânicas, esdrúxulas,
teimosas e dançarinas.

O salto é uma dança,
a teima é uma doença.
Em torno da cebola
o ar é tenso de lágrimas.


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BRITTO, Paulo Henriques. Trovar claro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. pp. 11-5.

22 de outubro de 2011

MEANS, David. El Morro. The New Yorker, Fiction, August 29, 2011, p. 62.

A guy was out walking in the desert one day when he came upon a horse and a dog. The horse gave a whinny. Then another whinny. Then the dog barked at the horse, and the horse gave yet another whinny. As the man got closer to the animals, he found himself able to understand the particulars of this exchange. All this talk of running free, of eating wild grass, of drinking from freshwater lakes means nothing to me, the dog said. I'm waiting for you to talk about hunting a rabbit, about tearing meat from a bone, about blood and gore. And the horse said, I'm sick of hearing about blood and gore. I'm tired of your stories about sniffing out wild muskrats. I'm waiting to hear you talk of wild clover, of fresh juniper leaves. Then the man felt compelled to interject. Meat and grass. What's the difference? The function of each is to give you life. Without that function, you're just bones. Then both animals turned on the man. The dog tore at his legs, and the horse drove his hooves into his face. When the man was dead, they went back to their argument.

5 de outubro de 2011

FERRY, Luc. O que é uma vida bem-sucedida? Tradução de Karina Jannini. Rio de Janeiro: Difel, 2010. p. 14.

Permitir acreditar que poderíamos ter êxito em nossas vidas como o temos com um suflê ou uma carne assada não seria o efeito de uma pretensão desmedida, quando pensamos em tudo o que na nossa existência não depende em nada de nós, mas regressa aos acasos do nascimento, à pura contingência dos acontecimentos, à sorte ou aos infortúnios mais cegos?

1 de outubro de 2011

Criação do mundo

A passagem da infinita perfeição à imperfeita finitude, pela qual Deus, dizem os teólogos, condescende a já não ser tudo. É o que Valery chamava de diminuição divina: passa-se do mais ao menos ("Deus e todas as criaturas são menos que Deus só", escreve Simone Weil), do bem absoluto ao mal relativo. Criar, para Deus, é retirar-se. É a única solução para o problema do mal que me parece teologicamente satisfatória (mesmo que, filosoficamente, não o seja de forma alguma). Deus, sendo todo o Bem possível, podia criar apenas o menos bem que ele - só podia criar o mal. Por que o fez? Por amor, responde Simone Weil: para nos deixar existir. O mundo nada mais é que o vazio que daí resulta, como que o vestígio de um Deus ausente.

O vazio eu enxergo, mas não o vestígio.


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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. [trad. Eduardo Brandão]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 132-3.

21 de setembro de 2011

De sacrifício

Meu carneiro
é bíblico
Branco
de olho azul
Cego


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ALVIM, Francisco. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 19.

Fragilidade

Hora suave

Aranhas suam frios
fios

Mortalha
de alhos?

Réstias debruçadas
de paredes de cal,
brancas

Cacos de ar


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ALVIM, Francisco. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 15.

29 de maio de 2011

VENTÓS, Xavier Rubert de. Deus, entre outros inconvenientes. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. p. 9.

A experiência me diz que, quando todo mundo se alia para criticar alguma coisa, muitas vezes o que está em jogo é mais a cumplicidade do grupo do que a objetividade do julgamento.

3 de abril de 2011

WOLFF, Fausto. A milésima segunda noite. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. p. 7.

Não há razão para escrevermos um livro se não o pretendermos grande. Desde que aprendi a ler e comecei a escrever histórias o fiz por vaidade - é nisso que o homem se resume, em vaidade e autopiedade -, mas inconscientemente pretendia também dizer aos outros: olhem, eu observei, comparei e cheguei a uma conclusão. Escrevendo, enriqueço meu espírito, aprendo sobre mim mesmo e, aprendendo sobre mim mesmo, apreendo vocês e o mundo. Claro que eu não pensava nisso desse jeito. Tudo estava - como está até hoje - muito confuso.

30 de novembro de 2010

Otimismo

Nas Mémoires de Trévoux (fevereiro de 1737), introduziu-se o termo optimisme ou "sistema do optimum" para designar a doutrina defendida por Leibniz na Teodicéia: o mal que pode ser encontrado na criação de Deus não deve ser julgado isoladamente, mas em relação com a totalidade da criação, a qual, em virtude da infinita bondade de Deus, não pode ser melhor do que é. A criação é, pois, "ótima", isto é, o mundo é um optimum. O otimismo é nesse caso um simples reconhecimento da “otimidade” do mundo.

Voltaire intitulou Candide, ou l’optimiste o romance no qual, entre outras coisas, se zomba das ideias, ou pronunciamentos, do doutor Pangloss, que, segundo se supõe, representa a concepção leibniziana , ou derivada de Leibniz, e toda forma de “teodicéia”: diante de desgraças e crueldades em série, o doutor Pangloss julga que tudo anda bem e que, se não tivesse ocorrido o mal que ocorreu, não teria vindo o bem que se celebra. Assim, portanto, tudo está bem: tout est bien dans le meilleur des mondes.

Visto que o pessimismo é o contrário do otimismo, caberia pensar que se Voltaire ataca este último é porque se manifesta em favor do primeiro. Contudo, embora Voltaire olhe a história com "pessimismo", como uma sucessão de desgraças, estas foram produzidas pela imbecilidade humana. As coisas podem melhorar eliminando-se a imbecilidade e a ignorância e fomentando a razão, que se ocultou, temerosa, no fundo de um poço, e é preciso fazê-la sair de lá. Voltaire é, nesse sentido, um "meliorista", ainda que caibam dúvidas sobre a intensidade desse "meliorismo" diante do pessimismo suscitado pelo terremoto de Lisboa, do qual ele dá testemunho no Poème sur le desastre de Lisbonne, de 1756.

As tendências ao pessimismo ou ao otimismo são anteriores à introdução dos vocábulos correspondentes. São também, em muitos casos, específicas, ou seja, relativas a determinado ponto ou fim. Assim, por exemplo, Hobbes é um pessimista no que se refere à condição humana em estado natural, enquanto Rousseau é um otimista no que diz respeito à mesma condição. Por outro lado, Hobbes é ao menos "meliorista" com relação às possibilidades de dirigir a condição humana por meio de um Estado autoritário que neutralize o egoísmo de cada indivíduo, e Rousseau é também pelo menos "meliorista" com relação às possibilidades de eliminar as perversões introduzidas pela "cultura" e de restabelecer a bondade natural do homem.

Pode-se distinguir entre um otimismo racional, e até racionalista; um otimismo temperamental, que não precisa buscar justificações racionais (ou que as encontra facilmente); e um otimismo ativo, ou pragmático, que se funda numa concepção libertadora da ação. Nenhum desses otimismos tem muitos defensores entre os filósofos; as manifestações de otimismo são escassas em comparação com as várias formas de intenso pessimismo que se manifestaram no século XIX (Schopenhauer, Eduard von Hartmann etc.), pessimismo que, depois de um período de "confiança" (ao menos entre certas camadas sociais no Ocidente), ressurgiu em estreita relação com as preocupações concernentes a possíveis catástrofes ecológicas, ou eco-catástrofes.

É possível ser um otimista "em geral", embora se seja pessimista com relação a aspectos particulares. Deste ponto de vista, as concepções da história segundo as quais esta se acha regida por leis, e especialmente por leis de aperfeiçoamento, são otimistas, a despeito de quaisquer formas de pessimismo e de crítica que possam ser encontradas em alguma etapa determinada.


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MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia (tomo III). São Paulo: Loyola, 2001. p. 2180-1.