15 de março de 2025

ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2022. pp. 84-5.

O problema é que caminhamos ao lado de pessoas que pensam que são eternas. Por causa dessa ilusão, levam a vida de modo irresponsável, sem compromisso com o bom, o belo e o verdadeiro, distanciadas da própria essência. Pessoas que não gostam de falar ou pensar sobre a morte são como crianças brincando de esconde-esconde numa sala sem móveis: elas tapam os olhos com as mãos e acham que ninguém as vê. Pensam de um jeito ingênuo: “Se eu não olho para a morte, ela não me vê. Se eu não penso na morte, ela não existe.” E é essa ingenuidade que as pessoas praticam o tempo todo com a própria vida. Pensam que, se não olharem para o lixo de relação afetiva, o lixo de trabalho, o lixo de vida que preservam a qualquer preço, será como se o lixo não existisse. Mas o lixo se faz presente. Cheira mal, traz desconforto, traz doenças.

Elas podem pensar que, se não olharem para o Deus morto que cultivam em seus dogmas, esse Deus ficará bem-comportado para sempre. Não querem saber da verdade de um Deus morto que não se abre para o milagre do encontro sagrado. Essa gente vive meio morta para as relações de amizade, para o encontro com seus pares; é gente morta dentro da família e morta também na relação que têm com o sagrado em sua vida. Viver como mortos faz com que essa gente toda não consiga viver de verdade. Existem, mas não vivem. Há muitos ao nosso redor.

Eu os chamo de zumbis existenciais. Nas redes sociais, ao insistir em compartilhar violência e preconceito, ao persistir na vaidade de se manter infeliz por dentro e bobamente feliz por fora, as pessoas cultivam cada vez mais a própria morte sem se dar conta disso.

17 de fevereiro de 2025

SIMAS, Luiz Antonio. Coisa nossas. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017. p. 63. E-book.

Um dia desses me pediram que falasse do meu carnaval inesquecível. Respondi que os melhores carnavais são aqueles dos quais não temos recordações, já que a essência da festa é o esquecimento. Carnaval bom é aquele do qual temos vaga, ou nenhuma, lembrança. O meu carnaval inesquecível, portanto, foi um desastre.

2 de dezembro de 2024

CIORAN, Emil. Nos cumes do desespero. Tradução de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2011. p. 18.

As mais profundas experiências subjetivas são também as mais universais, pois por meio delas chega-se à profundeza primordial da vida. A verdadeira interiorização conduz a uma universalidade inacessível aos que permanecem na zona periférica. A interpretação vulgar da universalidade vê nela mais uma forma de complexidade em extensão do que uma abrangência qualitativa, rica. Por isso, ela vê o lirismo como um fenômeno periférico e inferior, produto de uma inconsistência espiritual, ao invés de perceber que os recursos líricos da subjetividade apontam para um frescor e uma profundidade íntima dos mais notáveis.

CIORAN, Emil. Nos cumes do desespero. Tradução de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2011. p. 17.

Há estados e obsessões com que não se pode conviver. Nossa salvação não seria, portanto, confessá-los? Mantidas na consciência, a terrível experiência e a tenebrosa obsessão da morte tornam-se devastadoras. Ao falarmos da morte, salvamos algo de nós mesmos, ao mesmo tempo que no nosso ser algo se extingue, pois os conteúdos objetivados pela consciência perdem sua atualidade. O lirismo representa uma força de dispersão da subjetividade por indicar, no indivíduo, uma efervescência incoercível da vida, que sem cessar exige expressão. Ser lírico significa não podermos permanecer fechados em nós mesmos. Quanto mais interior, profundo e concentrado for o lirismo, mais intensa será essa necessidade de exteriorização.

28 de novembro de 2024

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 117.

No espírito de Nietzsche, era preciso uma Grande Política, livre das contingências estreitas e mesquinhas daquilo que se convencionou chamar hoje de política politiqueira. Afastada dos cálculos cotidianos, da aritmética em virtude da qual se ascende ao poder e depois lá se mantém, a grande política quer os meios de uma ação e visa à encarnação. O poder, certamente, mas para fazer o quê, senão exprimir, realizar, encarnar uma política, quer dizer, um projeto, ideias, um querer, uma energia. A força se distingue da violência, pois a primeira sabe aonde vai, e a segunda se submete aos impulsos selvagens que a habitam. O capitalismo é uma violência, a política uma força. E a segunda serve como único remédio para a primeira.

ONFRAY, Michel. A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão. [trad. Mauro Pinheiro]. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 117.

O reencantamento do mundo só poderá ocorrer visando ao fim de um economismo celebrado sob a forma de religião, entendido como único laço social possível hoje. A submissão da economia à lei da política é uma necessidade vital. Enquanto perdurar o inverso, a lei do mercado triunfará, sozinha, sem contrapartida e, projetados no sentido do abismo, nós conheceremos corridas desenfreadas em direção a mais mortes, sofrimento e dor.

20 de novembro de 2024

CIORAN, Emil. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 81.

No pavor, somos vítimas de uma agressão do futuro.

CIORAN, Emil. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 93.

Quanto mais convivemos com os homens, mais nossos pensamentos se obscurecem; e quando, para aclará-los, voltamos à nossa solidão, encontramos nela a sombra que eles projetaram.

CIORAN, Emil. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 87.

Cada dia é um Rubicão no qual aspiro a afogar-me.

CIORAN, Emil. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 89.

Nos empenhamos em abolir a realidade por medo de sofrer. Coroados nossos esforços, é a própria abolição que se revela fonte de sofrimentos.