94. Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar.
1 de outubro de 2014
22 de agosto de 2014
KHARMS, Daniil. The old woman. In: ______. Today I wrote nothing: the selected writings of Daniil Kharms. Tradução de Matvei Yankelevich. New York: Ardis Plublishers, 2009. p. 90.
Now I'm sleepy, but I will not sleep. I will take paper and pen and I will write. I sense an awful strength within me. I thought everything over yesterday already. It will be a story about a miracle worker who lives in our time and does not work miracles. He knows he is a miracle worker and could create any sort of miracle, but he does not do it. He is evicted from his apartment - he knows that were he to just wave a finger the apartment would stay his, but he does not do it; he timidly vacates his apartment and lives outside of town in a shed. He can turn this old shed into a wonderful brick house, but he does not do it; he continues to live in the shed and in the end he dies, not having worked a single miracle in all his life.
22 de abril de 2014
Noite
Estou olhando as mulheres passarem na rua em frente deste reles botequim.
O cara me diz, meu irmão, pode descolar uma grana para um sujeito faminto?
Foda-se, respondo.
Eu podia estar assaltando, mas estou pedindo - ele não sabia se ameaçava ou suplicava.
Foda-se, repito.
Não consigo ver bem seu olhos ansiosos de cão vadio; é uma dessas noites escuras, propícia para os pés-rapados foderem as rameiras no cantão e terem um alívio agônico enquanto o dia afinal não chega com ânsias mais horrendas.
______
FONSECA, Rubem. Noite. In: ______. Amálgama. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013. p. 13.
9 de abril de 2014
SUASSUNA, Ariano. Pedra do Reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. p. 193.
- Clemente, esse nome de "penetral" é uma beleza! É bonito, difícil, esquisito, e, só por ele, a gente vê logo como sua Filosofia é profunda e importante! O que é que quer dizer "penetral", hein?
(...)
- Olhe, Quaderna, o "penetral" é de lascar! Ou você tem a "intuição do penetral" ou não tem intuição de nada! Basta que eu lhe diga que "o penetral" é "a união do faraute com o insólito regalo", motivo pelo qual abarca o faraute, a quadra do deferido, o trebelho da justa, o rodopelo, o torvo torvelim e a subjunção da relápsia!
24 de março de 2014
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman & Paulina Watch. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 92.
O ator reina no perecível. Todos sabem que, de todas as glórias, a dele é a mais efêmera. Pelo menos é o que se diz. Mas todas as glórias são efêmeras. Do ponto de vista de Sirius, dentro de dez mil anos as obras de Goethe terão se transformado em pó e seu nome estará esquecido. Talvez alguns arqueólogos busquem "testemunhos" da nossa época. Tal ideia sempre foi instrutiva. Bem meditada, reduz nossas agitações à nobreza profunda que encontramos na indiferença. Atrai, sobretudo, nossas preocupações para o mais certo, quer dizer, para o imediato. De todas as glórias, a menos enganosa é a que se vive.
21 de março de 2014
Gosto
É a faculdade de julgar o belo e o feio, o bom e o ruim,
como um prazer que seria critério de verdade. O gosto concerne ao corpo, pela
sensação, a ao espírito, pela cultura. Ele se educa; não se cria.
Ele aspira ao universal (tenho a sensação de que todo mundo
deveria achar belo, de direito, o que julgo ser tal), mas permanece subjetivo
(não tenho nenhum meio de obter, de fato, a concordância de todos). É o que condena
quase inevitavelmente ao conflito ou à polêmica. Não se trata de gostar de
tudo, de admirar tudo, menos ainda de fingi-lo. "O verdadeiro gosto",
dizia Auguste Comte, "sempre supõe um vivo desgosto". E Kant, mais
profundamente: "Uma obrigação de gozar é um absurdo evidente". Não se
comanda o gosto, já que é ele que comanda.
Assim, o prazer sempre tem razão, mas não prova nada.
Pode-se discutir o gosto (aspirar ao assentimento necessário de outrem),
observa Kant, mas não disputar a seu respeito (decidir com base em provas). É o
que quase sempre se esquece, e que nos condena, num outro sentido, às disputas..."
______
COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. [trad.
Eduardo Brandão]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 267-8.
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André Comte-Sponville,
verbetes
7 de março de 2014
Mau cheiro
Os jornais anunciam que o prefeito
vai acabar com o mau cheiro em Olaria.
É melhor do que nada: esta cidade
anda fedendo muito ultimamente.
Não falo da Lagoa que, parece,
já fede por capricho;
nem da praia do Leblon,
do Posto Seis:
nossa taxa de lixo.
Falo de um odor que entranha em tudo e que se espalha
pela cidade inteira feito gás
e por mais
banho que tomemos
e por mais
desodorantes
que usemos
(na boca, na axila
na vagina;
no vaso do banheiro,
no setor financeiro)
não se acaba esse cheiro
______
GULLAR, Ferreira. Mau cheiro. In: ______. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 305.
6 de março de 2014
Digo sim
Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que
meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e
nuvens
Poderia dizer que meu povo
É uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à
fome
e dizendo
sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho
perdido
neste vasto continente
por Vianinha
ferido
pelo nosso
irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que
virá enfim,
não digo que
a vida é bela
tampouco me
nego a ela:
– digo sim
______
GULLAR, Ferreira. Digo sim. In: ______. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.
______
GULLAR, Ferreira. Digo sim. In: ______. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.
19 de fevereiro de 2014
Quem se defende
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhe tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
______
BRECHT, Bertolt. Quem se defende. [trad. Paulo César de Souza]. In: ______. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2006. p 73.
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhe tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
______
BRECHT, Bertolt. Quem se defende. [trad. Paulo César de Souza]. In: ______. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2006. p 73.
Da amabilidade do mundo
1
Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual nasceu, uma criança nua.
E ali ficou, criatura sem dono
Quando uma mulher o envolveu num pano.
2
Ninguém o chamou, não era necessário.
Para trazê-lo não houve emissário.
Era um desconhecido, ser sem proteção
Quando um homem o tomou pela mão.
3
Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual leva a morte que é sua.
Cada homem certamente amou a vida
Coberto por palmos de terra batida.
______
BRECHT, Bertolt. Da amabilidade do mundo. [trad. Paulo César de Souza]. In: ______. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2006. p. 45.
Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual nasceu, uma criança nua.
E ali ficou, criatura sem dono
Quando uma mulher o envolveu num pano.
2
Ninguém o chamou, não era necessário.
Para trazê-lo não houve emissário.
Era um desconhecido, ser sem proteção
Quando um homem o tomou pela mão.
3
Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual leva a morte que é sua.
Cada homem certamente amou a vida
Coberto por palmos de terra batida.
______
BRECHT, Bertolt. Da amabilidade do mundo. [trad. Paulo César de Souza]. In: ______. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2006. p. 45.
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