14 de julho de 2016
[escada de barro]
escada de barro
carrega lembranças
do braço amigo
______
RUIZ, Alice. Outro silêncio: haikais. São Paulo: Boa Companhia, 2015. p. 42.
8 de julho de 2016
Entre galos e cigarros, o amor
O amor em sua ilusão
é como o fumo que se queima,
e sabe em seu fogo toda a existência.
Mas, enquanto se esvai,
atribui à boca que o traga
toda permanência.
O amor em sua metafísica
canta como os galos
que sabem alvorecer a manhã,
mas tornam ao sono
na esperança de que o próprio canto
os desperte.
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MORGADO, Flávio. Entre galos e cigarros, o amor. IN: PORTOCARRERO, Celina (org). Amar, verbo atemporal: 100 poemas de amor. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 87.
29 de junho de 2016
Canção dos dias grandes
A tarde não termina
porque o dia se esquece
de correr a cortina
pra que ele próprio cesse
É dia é dia ainda
vamos brincar correr
depois será bem-vinda
a noite que vier
E um frio tão fino
tão pouco já, tão leve
joga com o menino
no crepúsculo breve
______
CRUZ, Gastão. Canção dos dias grandes. In: FERRAZ, Eucanaã (org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 19.
[quando eu tiver setenta anos]
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.
______
LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 35.
13 de junho de 2016
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
______
GULLAR, Ferreira. Cantiga para não morrer. In: FERRAZ, Eucanaã. A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 64.
Dia de hoje
Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
florindo nas ondas, cantando nas florestas,
no teu ar brilham transparentes festas
e o fantasma das maravilhas raras
visita, uma por uma, as tuas horas
em que há por vezes súbitas demoras
plenas como as pausas dum verso.
Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
bailando na doçura
e na amargura
de serem perfeitas e de serem breves.
______
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Dia de hoje. In: FERRAZ, Eucanaã (org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 45.
florindo nas ondas, cantando nas florestas,
no teu ar brilham transparentes festas
e o fantasma das maravilhas raras
visita, uma por uma, as tuas horas
em que há por vezes súbitas demoras
plenas como as pausas dum verso.
Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
bailando na doçura
e na amargura
de serem perfeitas e de serem breves.
______
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Dia de hoje. In: FERRAZ, Eucanaã (org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 45.
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Sophia de Mello B. Andresen
27 de maio de 2016
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
das outras vezes perdidas,
atiro a rosa do sonho
nas tuas mãos distraídas...
______
QUINTANA, Mário. Canção do dia de sempre. In: FERRAZ, Eucanaã. A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 124.
4 de março de 2016
Estado de contra-sítio
Assim, pois, estamos sitiados
E por quem
Por ti e por mim, pela coisa
Estamos sempre sitiados
Por fronteiras, alfândegas, controles de passaporte, Interpol, polícia militar, tanques, lábia, burrice,
Por medalhas, uniformes, discursos oficiais,
Promessas, imposturas, artimanhas,
Falsa indignação dos dirigentes, hipocrisia,
Televisão, rádio, sabões, detergentes,
Publicidade, turismo, excursões, cruzeiros,
Fogões, geladeiras, acampamentos, escoteiros,
Artigos sobre educação, por multidão, poeira, coletânea de poemas,
Falta d’água, adubo, nervos, perturbações digestivas, calvície,
Armadores, futebol, ônibus, pontualidades, lesões
Da coluna vertebral, burocracia, prazos, atestados,
Críticas, Igreja, torturas, oportunistas,
Suspeita, perseguições, medo, impudência, concursos
De beleza, falta de dinheiro, falta de liberdades, estamos sitiados pelos boçais,
Bocas-moles, por nossas ideias negras, por nós mesmos,
E por qualquer coisa que venha à cabeça, estamos sempre sitiados.
______
VALAORITIS, Nanos. Estado de contra-sítio. In: LACARRIÈRE, Jacques. Grécia: um olhar amoroso. [trad. Irene Ernest Dias & Véra dos Reis]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 544.
E por quem
Por ti e por mim, pela coisa
Estamos sempre sitiados
Por fronteiras, alfândegas, controles de passaporte, Interpol, polícia militar, tanques, lábia, burrice,
Por medalhas, uniformes, discursos oficiais,
Promessas, imposturas, artimanhas,
Falsa indignação dos dirigentes, hipocrisia,
Televisão, rádio, sabões, detergentes,
Publicidade, turismo, excursões, cruzeiros,
Fogões, geladeiras, acampamentos, escoteiros,
Artigos sobre educação, por multidão, poeira, coletânea de poemas,
Falta d’água, adubo, nervos, perturbações digestivas, calvície,
Armadores, futebol, ônibus, pontualidades, lesões
Da coluna vertebral, burocracia, prazos, atestados,
Críticas, Igreja, torturas, oportunistas,
Suspeita, perseguições, medo, impudência, concursos
De beleza, falta de dinheiro, falta de liberdades, estamos sitiados pelos boçais,
Bocas-moles, por nossas ideias negras, por nós mesmos,
E por qualquer coisa que venha à cabeça, estamos sempre sitiados.
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VALAORITIS, Nanos. Estado de contra-sítio. In: LACARRIÈRE, Jacques. Grécia: um olhar amoroso. [trad. Irene Ernest Dias & Véra dos Reis]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 544.
10 de dezembro de 2015
If it hangs from the wall, it's a painting. If it rests on the floor, it's a sculpture. If it's very big or very small, it's conceptual. If it forms part of the wall, if it forms part of the floor, it's architecture. If you have to buy a ticket, it's modern. If you are already inside it and you have to pay to get out of it, it's more modern. If you can be inside it without paying, it's a trap. If it moves, it's outmoded. If you have to look up, it's religious. If you have to look down, it's realistic. If it's been sold, it's site-specific. If, in order to see it, you have to pass through a metal detector, it's public.
___
LERNER, Ben. Angle of yaw. Port Townsend: Copper Canyon Press, 2006. p. 45.
4 de dezembro de 2015
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 296.
Ele tinha escutado tantas vezes essas coisas, que já não tinham para ele nada de original. Emma era parecida com todas as amantes; e o encanto da novidade, caindo pouco a pouco como uma roupa, deixava ver a nu a eterna monotonia da paixão, que tem sempre as mesmas formas e a mesma linguagem. Ele não distinguia, esse homem tão cheio de prática, a dessemelhança dos sentimentos sob a paridade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais tinham murmurado frases iguais, ele só acreditava fracamente no candor delas; dever-se-ia, pensava, desconsiderar os discursos exagerados que escondem as afeições medíocres; como se a plenitude da alma não se derramasse às vezes nas metáforas mais vazias, posto que ninguém, nunca, pode dar a exata medida de suas necessidades, nem de suas concepções, nem de suas dores, e que a palavra humana é como um caldeirão trincado onde batemos melodias para fazer os ursos dançarem, quando se quereria enternecer as estrelas.
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