Be silent, old frog.
Let God compound the issue as he must,
And dog eat dog
Unto the final desecration of man’s dust.
The just will be devoured by the unjust.
______
DURRELL, Lawrence. Poemas. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p. 198.
8 de outubro de 2017
Stoic
I, a slave, chained to an oar of poem,
Inhabiting this faraway province where
Nothing happens. I wouldn’t want it to.
I have expressly deprived myself of much:
Conversation, sweets of friendship, love...
The public women of the town don’t appeal.
I wouldn’t want them to. There are no others,
At least for an old, smelly, covetous bookman.
So many things might have fed this avocation,
But what’s the point? It’s too late.
About the matter of death I am convinced,
Also that peace is unattainable and destiny
Impermeable to reason. I am lucky to have
No grave illness, I suppose, no wounds
To ache all winter. I do not drink or smoke.
From all these factors I select one, the silence
Which is that jewel of divine futility,
Refusal to bow, the unvarnished grain
Of the mind’s impudence: you see it so well
On the faces of self-reliant dead.
______
DURRELL, Lawrence. Poemas. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p. 196.
Inhabiting this faraway province where
Nothing happens. I wouldn’t want it to.
I have expressly deprived myself of much:
Conversation, sweets of friendship, love...
The public women of the town don’t appeal.
I wouldn’t want them to. There are no others,
At least for an old, smelly, covetous bookman.
So many things might have fed this avocation,
But what’s the point? It’s too late.
About the matter of death I am convinced,
Also that peace is unattainable and destiny
Impermeable to reason. I am lucky to have
No grave illness, I suppose, no wounds
To ache all winter. I do not drink or smoke.
From all these factors I select one, the silence
Which is that jewel of divine futility,
Refusal to bow, the unvarnished grain
Of the mind’s impudence: you see it so well
On the faces of self-reliant dead.
______
DURRELL, Lawrence. Poemas. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p. 196.
13 de setembro de 2017
Vigiando o oco do tempo
Deslizo,
oculto aqui,
vigiando o oco do tempo.
Espaço ermo, parado.
Nada acontece. Nada parece acontecer.
Mas algo flui, o irremediável,
queimando todas as pontes de regresso.
Todo o passado está morto;
só vige o que vem, o que surge.
Todas as coisas íntegras dilaceram-se
ou são dilaceradas.
A velha senhora viajada,
detentora do recorde de milhagens,
temerosa das vacas do Ganges
depois de ter contemplado um berne
ao microscópio.
Berne que agora corrompe e torna pútrida
qualquer carne verde que ela vê
pois seu olho holografa
o esqueleto subjacente a todo corpo vivo.
Viver em mudança.
O assoalho repleto das peles velhas das cobras
e do pelo felpudo das aranhas caranguejeiras.
Viver em mudança.
Que a sobre-humana poesia pica e envenena
um homem.
______
SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 63.
Cobertor
Pode não haver luz na melancolia: pode ficar tudo insípido e os passos escassearem, diminuindo o alcance a frequência. O próprio batimento cardíaco pode ralentar-se e o horizonte aproximar-se, como um muro que nos alcança pela frente. Pode a alegria parecer ridícula debaixo de uma camada tão espessa (a melancolia é sempre um cobertor, um feltro, que silencia os agudos mas não os graves). Nossa vida pode parecer amaldiçoada desde o nascimento ou ainda mais, desde os mamutes ou desde os trilobitas.
Sim, pode, mas, ainda assim, alguma certeza a melancolia tem. Um foco, uma concentração diamantina naquilo (estar melancólico), um despreocupar-se com milhares de chamados e deveres, uma redução (uma compressão, mais exatamente) de um material gasoso ao estado quase sólido, que nos dispensa de atender telefones, de ser simpáticos, de falar alto. É isso o que tem de atraente e, no limite, de acolhedor.
RAMOS, Nuno. Fooquedeu. Piauí, Rio de Janeiro, n. 118, jul. 2016.
3 de dezembro de 2016
O gato e o galo
Um gato apanhou um galo e decidiu devorá-lo sob um pretexto bem plausível. E começou a fazer-lhe acusações, dizendo que ele era um estorvo para os homens, pois cantava à noite e não os deixava pegar no sono. O galo se defendeu dizendo que agia assim para o bem deles, despertando-os para cuidarem dos afazeres rotineiros. O gato fez uma segunda acusação: “Mas você também tem natureza ímpia, pois se acasala com sua mãe e suas irmãs”. E, como o galo afirmasse que agia assim também em benefício dos patrões, provendo para eles grande quantidade de ovos, o gato, sem jeito, respondeu: “Quer dizer que, se suas defesas forem sempre bem-sucedidas, eu não terei como comer você?”
ESOPO. Fábulas completas. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 217.
14 de julho de 2016
[diante de nós a noite]
diante de nós a noite
mas o sol ainda vai se pôr
no espelho retrovisor
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RUIZ, Alice. Outro silêncio: haikais. São Paulo: Boa Companhia, 2015. p. 90.
[folha seca]
folha seca
voa de volta ao galho
pé de vento
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RUIZ, Alice. Outro silêncio: haikais. São Paulo: Boa Companhia, 2015. p. 74.
[escada de barro]
escada de barro
carrega lembranças
do braço amigo
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RUIZ, Alice. Outro silêncio: haikais. São Paulo: Boa Companhia, 2015. p. 42.
8 de julho de 2016
Entre galos e cigarros, o amor
O amor em sua ilusão
é como o fumo que se queima,
e sabe em seu fogo toda a existência.
Mas, enquanto se esvai,
atribui à boca que o traga
toda permanência.
O amor em sua metafísica
canta como os galos
que sabem alvorecer a manhã,
mas tornam ao sono
na esperança de que o próprio canto
os desperte.
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MORGADO, Flávio. Entre galos e cigarros, o amor. IN: PORTOCARRERO, Celina (org). Amar, verbo atemporal: 100 poemas de amor. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 87.
29 de junho de 2016
Canção dos dias grandes
A tarde não termina
porque o dia se esquece
de correr a cortina
pra que ele próprio cesse
É dia é dia ainda
vamos brincar correr
depois será bem-vinda
a noite que vier
E um frio tão fino
tão pouco já, tão leve
joga com o menino
no crepúsculo breve
______
CRUZ, Gastão. Canção dos dias grandes. In: FERRAZ, Eucanaã (org). A lua no cinema e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 19.
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