4 de março de 2016

Estado de contra-sítio

Assim, pois, estamos sitiados
E por quem
Por ti e por mim, pela coisa
Estamos sempre sitiados
Por fronteiras, alfândegas, controles de passaporte, Interpol, polícia militar, tanques, lábia, burrice,
Por medalhas, uniformes, discursos oficiais,
Promessas, imposturas, artimanhas,
Falsa indignação dos dirigentes, hipocrisia,
Televisão, rádio, sabões, detergentes,
Publicidade, turismo, excursões, cruzeiros,
Fogões, geladeiras, acampamentos, escoteiros,
Artigos sobre educação, por multidão, poeira, coletânea de poemas,
Falta d’água, adubo, nervos, perturbações digestivas, calvície,
Armadores, futebol, ônibus, pontualidades, lesões
Da coluna vertebral, burocracia, prazos, atestados,
Críticas, Igreja, torturas, oportunistas,
Suspeita, perseguições, medo, impudência, concursos
De beleza, falta de dinheiro, falta de liberdades, estamos sitiados pelos boçais,
Bocas-moles, por nossas ideias negras, por nós mesmos,
E por qualquer coisa que venha à cabeça, estamos sempre sitiados.

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VALAORITIS, Nanos. Estado de contra-sítio. In: LACARRIÈRE, Jacques. Grécia: um olhar amoroso. [trad. Irene Ernest Dias & Véra dos Reis]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 544.

10 de dezembro de 2015


If it hangs from the wall, it's a painting. If it rests on the floor, it's a sculpture. If it's very big or very small, it's conceptual. If it forms part of the wall, if it forms part of the floor, it's architecture. If you have to buy a ticket, it's modern. If you are already inside it and you have to pay to get out of it, it's more modern. If you can be inside it without paying, it's a trap. If it moves, it's outmoded. If you have to look up, it's religious. If you have to look down, it's realistic. If it's been sold, it's site-specific. If, in order to see it, you have to pass through a metal detector, it's public.

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LERNER, Ben. Angle of yaw. Port Townsend: Copper Canyon Press, 2006. p. 45.

4 de dezembro de 2015

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 296.

Ele tinha escutado tantas vezes essas coisas, que já não tinham para ele nada de original. Emma era parecida com todas as amantes; e o encanto da novidade, caindo pouco a pouco como uma roupa, deixava ver a nu a eterna monotonia da paixão, que tem sempre as mesmas formas e a mesma linguagem. Ele não distinguia, esse homem tão cheio de prática, a dessemelhança dos sentimentos sob a paridade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais tinham murmurado frases iguais, ele só acreditava fracamente no candor delas; dever-se-ia, pensava, desconsiderar os discursos exagerados que escondem as afeições medíocres; como se a plenitude da alma não se derramasse às vezes nas metáforas mais vazias, posto que ninguém, nunca, pode dar a exata medida de suas necessidades, nem de suas concepções, nem de suas dores, e que a palavra humana é como um caldeirão trincado onde batemos melodias para fazer os ursos dançarem, quando se quereria enternecer as estrelas.

26 de outubro de 2015

Pedido

Houvesse deus e os deuses
a fim de que lhes pedisse:

o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije,

todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída

da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.

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FERRAZ, Eucanaã. Cinemateca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 37.

O doido


Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra

acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça

reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua

em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.

Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação

de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos

encardidos a água das praias,
como se província sua,

como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,

Até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.


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FERRAZ, Eucanaã. Cinemateca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 127.

28 de setembro de 2015

GOETHE, Johann Wolfgang von. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. Tradução de Nicolino Simone Neto. São Paulo: Ed. 34, 2006. p. 216.

Por que o mestre-de-capela se sente mais seguro com sua orquestra que o diretor com seu espetáculo? Porque ali todos haverão de se envergonhar de seus desacertos, que ofendem o ouvido exterior; mas raramente tenho visto um ator reconhecer e envergonhar-se de seus desacertos, perdoáveis ou não, que ofendem de maneira tão indigna o ouvido interior. Não desejaria eu outra coisa senão que o teatro fosse tão estreito quanto a maroma de um funâmbulo, para que nenhum inepto ousasse nela subir, ao contrário do que ocorre agora, quando qualquer um se sente apto o bastante para se exibir em público.

16 de agosto de 2015

Ultima multis


de repente um gosto veio
fugacidade e saliva
um certo ranço, receio
dessa hora decisiva

lembro-me do rosto, meio
encoberto, inconcebida
sensação — o quarto cheio
em torneio com a vida

depois, o choro — e calcadas
na parede, as sombras — luto
de formas mal debuxadas

suspiros, rosas em cruz
sobre o peito resoluto
círios, odores e luz

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FERREIRA, Antonio Geraldo Figueiredo. Peixe e míngua. São Paulo: Nankin Editorial, 2003. p. 93.

21 de julho de 2015

CAMUS, Albert. Esperança do mundo: cadernos (1935-37). Tradução de Rafael Araújo & Samara Geske. São Paulo: Hedra, 2014. p. 56.

AGOSTO DE 37 - Sempre que escuto um discurso político ou que leio aqueles dos que nos governam, fico impressionado com o fato de, depois de anos, não ouvir nada que traduza um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E que os homens se acomodem, que a raiva do povo ainda não tenha derrubado os marionetes [sic], eu vejo nisso a prova de que os homens não dão nenhuma importância ao seu governo e que eles brincam, sim, realmente brincam com uma parte de suas vidas e de seus interesses supostamente vitais.

CAMUS, Albert. Esperança do mundo: cadernos (1935-37). Tradução de Rafael Araújo & Samara Geske. São Paulo: Hedra, 2014. p. 51.

JULHO DE 37 - O aventureiro. Tem o sentimento claro que não há mais nada a fazer em arte. Nada de grande ou novo é possível - ao menos nessa cultura do Ocidente. Só resta a ação. Mas quem tem uma grande alma só parte para a ação com desespero.

1 de abril de 2015

Lista de preferências de Orge


Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos
Divindades, o Logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

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BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. São Paulo: Editora 34, 2006. p. 47.