29 de outubro de 2022

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão seguido de A influência do jornalismo e Os jogos olímpicos. [trad. Maria Lúcia Machado]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. p. 96.

O índice de audiência é a sanção do mercado, da economia, isto é, de uma legalidade externa e puramente comercial, e a submissão às exigências desse instrumento de marketing é o equivalente exato em matéria de cultura do que é a demagogia orientada pelas pesquisas de opinião em matéria de política.

18 de outubro de 2022

GIKOVATE, Flávio. Reflexões que permanecem: uma compilação. São Paulo: MG Editores, 2017. p. 27.

Muitas de nossa verdadeiras propriedades, como a inveja, a vaidade e a agressividade, são negadas e vão para o porão do inconsciente, de onde influenciam dramaticamente a conduta real da maior parte das pessoas, mesmo daquelas que se pretendem mais idealistas e despojadas.

13 de setembro de 2022

DUNKER, Christian Ingo Lens. "Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático". IN: ABRANCHES, Sérgio et al. Democracia em risco? 22 ensaios sobre o Brasil hoje. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 116-7.

Há situações psíquicas, no interior das quais deixamos de adquirir ou perdemos nossa capacidade de uso autônomo da razão, por exemplo, quando estamos apaixonados, hipnotizados ou sob funcionamento de massa. Nesses casos, suspendemos nossa crença na palavra como instância de mediação de conflitos, resistimos a escutar o outro e podemos nos lançar em atividades impulsivas, cujo objetivo é suspender o trabalho da lembrança e do pensamento (acting out). Tendemos a esquecer ou a evitar lembrar aspectos dolorosos de nós mesmos e de nossa própria história. A descrição clássica do estado de massa envolve o contágio de afetos, como os que se observa em uma multidão enfurecida, um exército em pânico ou uma assembleia de religiosos em comoção. No estado de massa somos tomados por uma espécie de amnésia e de falsa coragem, e dizemos e fazemos coisas que nunca nos autorizaríamos se estivéssemos sozinhos, com nossa consciência.

30 de março de 2020

Pessimismo

“− Sabe a diferença entre um otimista e um pessimista?

− ?

− O pessimista é um otimista bem informado.”

Essa adivinha, que nos veio da Europa Central, é, ela própria, pessimista. É por isso talvez que nos divirta: porque vemos nela uma espécie de círculo vicioso, sem que isso seja o bastante para refutá-la.

O que é o pessimismo? É ver as coisas pelo pior (pessimus) ângulo, seja por considerar que há mais males do que bens, seja por pensar que os males vão se agravar. No sentido filosófico, o pessimismo se inclui na primeira categoria: é muito mais um pessimismo atual do que prospectivo (dado que Schopenhauer é o grande pensador do pessimismo, assim como Leibniz é do otimismo). No sentido corrente, o pessimismo tem mais a ver com a segunda categoria, isto é, com o futuro, que ele imagina pior que o presente. A velhice e a morte parecem lhe dar razão, pelo menos no caso do indivíduo, assim como o progresso e a religião, de uma maneira diferente, dão-na ao otimismo. Só faltava fazer do progresso uma religião, para que o pessimismo fosse definitivamente derrotado (pelo menos, é o que se podia crer). Daí as utopias e os diferentes messianismos que, desde o século XIX, não cessaram de nos oferecer novas razões para ter esperança... Infelizmente, só nos deram novas razões para desconfiar... dos otimistas.

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COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2011. pp. 452-3.

26 de novembro de 2017

MENCKEN, H. L. O livro dos insultos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 221.

A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável.

8 de outubro de 2017

Envoi

Be silent, old frog.
Let God compound the issue as he must,
And dog eat dog
Unto the final desecration of man’s dust.
The just will be devoured by the unjust.

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DURRELL, Lawrence. Poemas. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p. 198.

Stoic

I, a slave, chained to an oar of poem,
Inhabiting this faraway province where
Nothing happens. I wouldn’t want it to.
I have expressly deprived myself of much:
Conversation, sweets of friendship, love...
The public women of the town don’t appeal.
I wouldn’t want them to. There are no others,
At least for an old, smelly, covetous bookman.
So many things might have fed this avocation,
But what’s the point? It’s too late.

About the matter of death I am convinced,
Also that peace is unattainable and destiny
Impermeable to reason. I am lucky to have
No grave illness, I suppose, no wounds
To ache all winter. I do not drink or smoke.
From all these factors I select one, the silence
Which is that jewel of divine futility,
Refusal to bow, the unvarnished grain
Of the mind’s impudence: you see it so well
On the faces of self-reliant dead.

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DURRELL, Lawrence. Poemas. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p. 196.

13 de setembro de 2017

Vigiando o oco do tempo


Deslizo,
oculto aqui,
vigiando o oco do tempo.
Espaço ermo, parado.
Nada acontece. Nada parece acontecer.
Mas algo flui, o irremediável,
queimando todas as pontes de regresso.
Todo o passado está morto;
só vige o que vem, o que surge.
Todas as coisas íntegras dilaceram-se
ou são dilaceradas.
A velha senhora viajada,
detentora do recorde de milhagens,
temerosa das vacas do Ganges
depois de ter contemplado um berne
ao microscópio.
Berne que agora corrompe e torna pútrida
qualquer carne verde que ela vê
pois seu olho holografa
o esqueleto subjacente a todo corpo vivo.
Viver em mudança.

O assoalho repleto das peles velhas das cobras
e do pelo felpudo das aranhas caranguejeiras.
Viver em mudança.
Que a sobre-humana poesia pica e envenena
um homem.

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SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 63.

Cobertor

Pode não haver luz na melancolia: pode ficar tudo insípido e os passos escassearem, diminuindo o alcance a frequência. O próprio batimento cardíaco pode ralentar-se e o horizonte aproximar-se, como um muro que nos alcança pela frente. Pode a alegria parecer ridícula debaixo de uma camada tão espessa (a melancolia é sempre um cobertor, um feltro, que silencia os agudos mas não os graves). Nossa vida pode parecer amaldiçoada desde o nascimento ou ainda mais, desde os mamutes ou desde os trilobitas.

Sim, pode, mas, ainda assim, alguma certeza a melancolia tem. Um foco, uma concentração diamantina naquilo (estar melancólico), um despreocupar-se com milhares de chamados e deveres, uma redução (uma compressão, mais exatamente) de um material gasoso ao estado quase sólido, que nos dispensa de atender telefones, de ser simpáticos, de falar alto. É isso o que tem de atraente e, no limite, de acolhedor.


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RAMOS, Nuno. Fooquedeu. Piauí, Rio de Janeiro, n. 118, jul. 2016.

3 de dezembro de 2016

O gato e o galo

Um gato apanhou um galo e decidiu devorá-lo sob um pretexto bem plausível. E começou a fazer-lhe acusações, dizendo que ele era um estorvo para os homens, pois cantava à noite e não os deixava pegar no sono. O galo se defendeu dizendo que agia assim para o bem deles, despertando-os para cuidarem dos afazeres rotineiros. O gato fez uma segunda acusação: “Mas você também tem natureza ímpia, pois se acasala com sua mãe e suas irmãs”. E, como o galo afirmasse que agia assim também em benefício dos patrões, provendo para eles grande quantidade de ovos, o gato, sem jeito, respondeu: “Quer dizer que, se suas defesas forem sempre bem-sucedidas, eu não terei como comer você?”

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ESOPO. Fábulas completas. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 217.